quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

(Re)inventar.

Meus pés trilham a estrada que corro.
Solto-me pelo ar, vendo o horizonte intenso,
denso como minha pele negra,
como meus olhos coloridos
e cheios de esperança por tudo que virá.
Essa é a vida que construo a cada dia,
de tijolo em tijolo e argamassa quartzolit.
Não a quero muito sólida pois,
se em algum tempo, ela ficar pequena demais,
quero edificá-la e edificar-me outra,
maior e do jeito que me caiba em outra época.
É assim que espero viver, pelo que me vejo viva ainda
em espaço e tempo infinitos: nunca morrer-me,
sempre crescer-me, mudar-me para caber-me inteira
em chão, casa, terra, ar e coração.

"How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here"

Wish you were here, Pink Floyd.

domingo, 22 de novembro de 2009

Trigo.

Um olhar é mais que intrigante e irreversível para o que se pensa posteriormente. Um olhar, dois olhares, três... e assim vai o dia todo, entre olhares entreolhando-se, olho no olho, uma coisa meio louca e incontavelmente incontável. É bom isso, o frio na barriga desperta o corpo meio introspectivo ao som de algum acorde impensado. O que se faz depois? nada. Pára-se o parabrisa molhado, cheio de gotas apartadas pelo limpa-vidros. Elas não sabem, mas quando olhas para dentro do espectro de cores dentro delas, o olho reflete-se no meu parado, esperando a mira certeira do sim. Engraçado, intrigante, introspectivo e absolutamente lindo: os olhos entregam-nos. Para quem, ainda não sabemos. Para quê, então, nenhum rastro de ideação ilusória para resgatar as respostas. Simplesmente hoje, não sei bem o porquê (aliás, nunca o sei, é infinito isso), o sentido no seu olhar fez do meu sono e sonhos não quererem acordar-me neste domingo ensolarado.

sábado, 14 de novembro de 2009

O melhor dia do ano.

Ontem foi o meu melhor dia do ano. As coisas mais simples foram feitas, as mais chatas, resolvidas, as mais bestas, vividas com riso e sorvete da Mc Donald's. Soube ontem que amigos existem, mas que muitos não estão tão aí pra você no momento mais crítico, enquanto outros, mesmo com sono e de saco cheio do dia atarefado, fazem o possível e o impossível para agradá-lo, ver seu sorriso aflorar em rios de lágrimas de alegria. E, muito mais do que meu dia perfeito, foi o meu abraço e cheiro perfeitos, o som da voz doce e forte de quem sabe o que é música de verdade. E a faz com clareza e sinceridade, com o vício interior de soltar-se inteira para o mundo perceber o quão frágil é a existência, o quão simples são certas coisas, o quão duro e feio somos às vezes. Música é minha vida também. Foi meu primeiro amor, é minha segunda profissão, é minha casa favorita. E quando amo algo, amo do bom e do melhor. Sem querer jactar-me de bom gosto, mas o dia perfeito foi feito por causa do acaso, da minha escolha inusitada, da música que amo e gosto de ouvir pois a preferi em algum momento da vida. A saída sem pretensão, sem planos, um bilhete por acaso. O show perfeito, a chuva a molhar-me os cabelos escovados, os pisões e tropeços de muitos outros fãs em euforia, assim como eu, que ouvia e via serenamente e ferozmente a voz linda com palavras fáceis e poéticas. No fim, mais uma coisa inusitada: a simplicidade dantes estampada no palco, bem rente aos nossos pés, pisando o mesmo ladrilho do calçamento da saída do pátio. Mesma altura, mesma chuva e água mineral. Foi de uma nobreza aquele ato impensado, mas que me deu na telha pedir e que com um sim, fui agraciada em mil maravilhas e alegrias. Acho que ser artista é isso, é encontrar-se em todos os cantos, com todos os encantos próprios, com os outros que respeitem o que se escreve e canta; é estar no mesmo patamar após um cântico, com o inusitado, um abraço, um obrigada por fazer do meu dia, o melhor dia e mais perfeito deste ano que se enfim finda iluminado.

sábado, 17 de outubro de 2009

"No intento da vida urbana,
onde as luzes se acendem em vasta imensidão
escura do sol que se pôs,
Em que lugar procurar o amor?
Em que esquina ele se esconde?
A que horas seu trem chega,
em que estação desembarca?
Em que lanchonete irá saciar a fome
de viagem longa,
de passeio incerto,
de veraneio cego,
de intento à procura incessante?
Onde, meu Deus, em que ilha deserta,
em que ponto de ônibus,
em que praia deserta,
em que areia amarela, cinza, branca,
em que lugar do mundo, do universo,
em que constelação estará?
Fico a olhar o céu, cheio de encantamentos,
pensando na rua deserta e iluminada,
com seus muitos carros e transeuntes.
Penso que perdi alguma coisa nessa azáfama
diária, nesse lugar limitado, nessa casa acima
dos morros e casas".
...
...

domingo, 11 de outubro de 2009

Amigos.

Eu não sei viver sem eles. E quando vem chegando o fim-de-semana, ah, fico numa saudade! Claro, cada um tem suas vidas, seus outros amigos, família e namorado(a). Mas, mesmo assim, a saudade não sabe ou não se contenta. Ela vem, bate e perdura até a segunda-feira, quando os reencontro e nos damos bom dia. É bom saber também que eles me amam. E isso se torna óbvio, pois, quando se é amigo de verdade, e a recíproca é verdadeira, dá pra sentir a energia boa, o brilho nos olhos e o bem-querer que se emana de cada gesto e conversa fiada. Eu os amo muito, percebi outro dia. É, porque amor que é amor, não "dá assim tão na cara de vez". Ele "se achega", vem de mansinho, se instala e fica lá assoviando para o alto, com cara de coerência, sem esperar que seja notado. Aí, quando se vê, ele arregala os olhos e se pergunta em pensamento: dã, só agora você percebeu, bicho? E com os amigos a coisa é ainda mais linda e complexa. Mesmo chatos ou insuperáveis nos defeitos mais esquisistos, a incondicionalidade do sentimento é superior a quaisquer dúvidas. Interessante isso. Até porque, gente, é incrível como não se precisa fazer nada para conquistar um amigo: o amor acontece sem que a gente espere muito dele, sem que haja um sentido ou caminho a seguir. Essa é a verdadeira conquista, o verdadeiro propósito da vida doida que segue infinita. E eu amo muito meus amigos. Sinto a falta deles no meu dia-a-dia, nos meus estudos chatos, nas minhas noites de chuva onde não se tem nada para pensar ou fazer. Agradeço todos os dias ao pensamento cósmico que rege o universo, pelo complexo fato de ter cruzado os nossos caminhos e feito surgir o encantamento inicial, coisa que nutrimos a cada dia, com uma pitada de tapas e risos mágicos, com um monte de estresse e cheirinhos bobos, com uma meia caixa de cerveja numa sexta-feira de estudos e sono. É, assim é minha vida e meu amor por eles. Amigos são tudo, são a família que a gente escolhe diante de um mundo tão grande, cheio de maldades e desalentos que se sobrepõem a tanta beleza e felicidade escondidas em algum canto de olho ou apertar de mãos.
...
Amo vocês, seus pestes insuportáveis.
=]

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Chuva.

Você faz parte da minha vida e eu da tua, é inevitável! Tudo que nos cerca é nosso, é infinitamente e decoradamente nosso, relembrável e impossível de ser desmembrado. Não importa o quanto nós queiramos distância ou tentemos os 'desvínculos': somos um passado entrelaçado, mesmo que pouco, mas inesquecível, indelével. Vira e mexe, vejo alguma foto nossa, ouço alguma música que é a sua cara. E é incrível o quanto isso é tão presente, apesar de longínqüo no tempo, no sentimento e na memória inerte de coisa pouca.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ode à primavera.

Chegaste quase, ó honrosa e doce primavera inefável.
Sinto seu cheiro permeando as torrenciais chuvas que tornam
o dia tão chato quanto é este meu coração diluviado que vos fala.
O queimor simples e manso que trazes é a salvação celestial
para os desalmados corredores do frio cinzento que habita o céu lá fora.
O vento, o silêncio, os pingos na calçada, nada é mais belo
que o início da vida nas árvores, muros e encostas dantes tórridas.
Eu sinto sim, cheiros mil, flores inundando os sonhares acordados,
os pesadelos infinitos que, num rompante da madrugada, acolhem-se
auspiciosamente na tua breve morada abrupta, de um novo coração trimestral.
Chegue logo, ó divina cor laranja que o sol insiste em pôr no raiar do dia;
Venha insípida e doce, transtornados pelo calor, pela vida que ascende,
pelas cortinas que acendem o flambejar do dia intenso e sudoréico,
mas lindo e cheio de rompante de vida.
Espero-te, ainda com uma leve e prévia saudade da brisa fúnebre,
que neste inverno fez-me pensar em ti tão premente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Here comes the weekend.

Aí vem a boa nova, a andar calma pelos campos vastos de alguma coisa ainda imatura e tenra.
Sou eu quem cavalga num galope doce e cheio de lombalgia de outros tempos.
As nuvens não mais habitam o céu, meu coração tilinta e pulsa por ele próprio.
- Ah, como é bom o gozo de estar e ser novamente o eu dantes esquecido e despedaçado de outrora!
Sim, é "sol de primavera, que abre as janelas do meu peito", pois
"quando entrar setembro", essa boa nova sempre permeará os meus campos cheios de ternura e sonho.
"here comes, here comes the weekend..."

terça-feira, 7 de julho de 2009

Férias.

Quero-me absorto e imóvel por uns tempos.

Nunca vi amor doer em ser humano amado. Hoje o vi.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

E aí vem o São João!

É a melhor época e festa do ano, que as gentes do interior esperam ávidos e auspiciosos. Fui criada assim, em meio aos 'tracks', chuvinhas, vulcões e busca-pés que a meninada insistia em 'soltar' escondido dos mais cuidadosos pais e parentes. Aí, quando se via e ouvia, era aquele clarão e um estouro de estourar os tímpanos dos desavisados. Ai, como era bom ser menina naqueles velhos e idos tempos em que as festividades juninas eram isentas do comercialismo barato e ferrenho dos dias de hoje. Ir para a praça, toda enfeitada de barracas e bandeirolas, com os sanfoneiros, 'trianguleiros' (lê-se triangleiros, como diria meu amigo Cláudio) e zabumbeiros cantando "Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz..." era a diversão das cidadezinhas perdidas no oeste da minha 'Baêa'. Depois de vários anos morando na Bahia (entende-se Salvador, a capital desta), como diria meu tio Justino, muitos de nós não perderam esse intusiasmo de fazer os 'panos de bunda' e pegar um ônibus, cujo tempo gasto é de mais de 10 horas até a chegada nesse interior onde nasci, às margens do São Francisco. Ê, São Francisco véi! Palco de muitos 'São Joões' e também de muita presepada de minha infância.
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Bem, quando eu fiz 13 anos, fui agraciada por minha tia para ir numa festa de São Pedro, que acontecia(e) em Oliveira dos Brejinhos, a pouco mais de 90 km de minha cidade, Ibotirama. Era fácil chegar lá, era só pegar um carro, dirigir por menos de 1h e pronto, estávamos nas Oliveira, toda enfeitada, cheia das bandeirolas, cada praça tocando uma banda diferente, com aquelas pessoas de vários lugares da região. Era um mundo novo que eu descobria. Fomos pois alugamos uma casa, iríamos ficar até o último momento de festa. E foi bom, ah, como foi bom. Nos anos seguintes a mesma coisa se repetia, era como um ritual ir pras Oliveira.
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Eu só vim descobrir o São João adolescente aos 14 anos. Começamos a freqüentar Boquira, pois meu tio se mudara para lá na época. Desde então, nunca mais deixei de ir. É sempre o mesmo, sempre a mesma coisa de sempre, mas, o bom é que os forrós improvisados, os sanfoneiros e zabumbeiros não somem nunca de lá. Acho que é por isso que eu gosto: o gosto da cidade é bom, o cheirinho de chuvinhas, das bombas de mil, as crianças correndo pelo 'redondo' da praça principal; o boteco de Tchoulinha, Budago, Cambão e Sil, onde a gente pára para tomar várias 'canela de pedreiro'; a festa do 'ninguém sara mais' em Lula, com uma atração que ninguém sabe de onde veio e pra onde vai, mas que, não tem importância, porque é animado do mesmo jeito; o 'pinga-pinga' que Pró Paula organiza, onde a gente sai na rua com o sanfoneiro tocando e visita um monte de casas de vários fulanos de tal, que fazem bode assado desfiado e deixam uns vários potes de licor à disposição dos participantes; o forró do tutano, que a gente compra uma camisa e tem churrasco de grátis; outros forrós lá, de outras galeras, que a gente invade também em algumas ocasiões, apesar das rixas entre os grupos, então não dá pra ser assim tão displiscente. Ê, é a Boquira véa!
'Apois' então, e aí vem novamente - graças a Deus! - o São João. Esse ano, não muito diferente dos outros, Boquira estará presente mais uma vez na minha vida. Depois dela, as Oliveira, para o São Pedro fechar com chave de ouro as minhas férias. Novidades novas? Sim, esse ano meus amigos farão parte deles comigo. E, com certeza, neste último São João da minha vida estudantil, quiçá até último por algum tempo depois, a 'jiripoca vai piar' com a gente cambaleando pelos ladrilhos da cidade a cantar "... vem cá cintura fina, cintura de pilão, cintura de menina, vem cá meu coração...".