O que é que tem de errado comigo, meu Deus? Por que eu só desejo pessoas impossíveis, tenho amores platônicos, insisto nos mesmos erros de sempre, mesmo sabendo-os errados e sofríveis? Tem algo muito sério de errado comigo. Já pensei tanto sobre isso, já procurei um muito ver o invisível para meus olhos; perguntei em todas as esquinas onde passei, aos transeuntes desconhecidos, conhecidos e até aos mais próximos de convivência do dia-a-dia; escrevi, li, vi fotos e cartas antigos, pensei até adormecer quando o sol raiava; virei-me ao avesso, entrei em mim muitas vezes, saí, fiquei de fora olhando e conversando até as mais pueris das coisas absurdas. O que falta então? algum ifá que me veja o destino e o que sou de fato ainda encoberto por alguma coisa que eu não sei? alguma viagem para vidas passadas, ver o porquê pago e sofro tanto por não ser nada, não sentir nada, não saber o que se é? Onde está o erro? Será que é a própria existência, o ser sendo, único? Eu não entendo mesmo. São tantas perguntas sem respostas, desencadeadas por um sentimento que o mundo me deu, por não dar-me sorte ou que os desejos fossem satisfeitos. Eu tive um pouco do que quis, sempre pagando por tê-lo, em outras instâncias da vida. Os percalços foram muitos, as vitórias mesmo, poucas. Aprendi a ser quem sou hoje pelos embaraços, sempre aos trancos e barrancos. O que falta mais? algum desafio para desistir? Eu não agüento mais essa batalha diária por qualquer coisa, por tudo sempre. Nada vem de graça, sem um porquê, normalmente, sem uma renúncia significativa. Sempre esperei e nada tive; sempre batalhei, muito pouco consegui, com um custo muito grande. Sinceramente, não sei o que pensar mais sobre mim, minha vida, meus erros paroxísticos, minha nada sabedoria de botequim barato e ridículo. Eu não sou nada. E ninguém me vê. Essa indignação por me ver tão solta nesse universo de nada e coisa besta é que me deixa assim: nervosa, triste, descontente com o que sou, numa falsidade incoerente comigo mesma. Eu não sei mais o que fazer para mudar isso. Cheguei ao fundo do poço, com os olhos molhados de lágrimas, a cara inchada, os olhos tristes e desacreditados em qualquer coisa que o mundo tem e abarca. É uma vontade de não continuar mais, de deixar-me aqui, neste fundo de poço imundo e chato, sem sequer baratas ou ratos para inferir algum sentimento, mesmo que de nojo. É uma falta de vontade, um cansaço, uma evolução de coisa errada, uma história sem nexo, uma vida ridícula e infiel a tudo que eu sonhei outrora. Estou infeliz. Estou infeliz e desacreditada que tenho corpo, mente ou que sou alguma coisa nesse mundo que nada me deu de felicidade.
Eu amo alguém que nem conheço. Eu acho que amo. Pelo menos, o que sinto, é amor. O amor do jeito que eu acho que é amor. Quando o vejo, mesmo que de longe, no seu mundo ideal, pois acho que é ideal para ele, e para mim consequentemente, meu coração dispara, fico envergonhada, sem saber o que fazer, para onde olhar, o que dizer; os meus olhos correm para a sua direção, não consigo separá-los da sua imagem seja onde for; eles o seguem, observam todos os movimentos, contemplam todo o ar que se move perto dele. Quando eu penso nele, sinto-me flutuar entre as nuvens, num céu colorido, com um gosto bom de paz e quietude. Ele faz parte dos meus dias quentes, do frio da noite, da minha cama vazia sem ele. Ele está na minha cabeça oca, e que mesmo errada e platônica, gosta e insiste nesse desvario. Por que é melhor não estar lá fora apaixonando-se por algo real do que trancado no meu quarto com o pensamento nele? será medo do mundo do não mais uma vez? será medo de sofrer ainda mais, porquanto tenho o que eu quero dentro do vídeo da minha (in)consciência? Eu não sei. Parece uma vontade de ser criança de novo, para ter tudo que se pede e quer sob a ameaça de um choro. Olho para o céu todos os dias, contemplo as estrelas e as nuvens que desenha na escuridão da noite. Me ensinaram que as forças do universo estariam por detrás dele, em algum canto de algum cometa intinerante ou nebulosa quaisquer. Pergunto a eles porquê. Nunca me responderam a não ser com a vontade contínua de estar apaixonada por ele. Fico a chorar-me para ver se os anjos e deuses de algum misterioso lugar tenham pena da pobre mortal que já se cansou de questionar o porquê de tudo que a condena à tristeza e solidão sólidas. Sobre o meu amor, até eu mesma sei que é loucura, bobagem, coisa que deveria ter passado ou ficado na adolescência. Mas, a vontade de vê-lo nos meus sonhos volta, meu corpo pede o calor imaginário e a paz acolhedora do amor que nunca acontecerá. Depois, quando o vejo, sem enxergar-me, chego em casa para ver a vontade de chorar passar com o sono. Fora tudo que me cerca de problemas e infelicidade, sempre quis ter paz em alguma coisa que me faz sentir gente, ser humano, com sentimentos e sofrimentos a dois. É, acho que eu pedi demais.
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